desesterro  (2015)

 

APRESENTAÇÃO

Venho de uma família de migrantes e imigrantes: a família da minha mãe veio da Itália e a do meu pai veio do nordeste do Brasil tentar fazer a vida na capital financeira do País. Minha migração foi diferente, não foi geográfica. Apenas vinte quilômetros separam o centro e a periferia de São Paulo, onde nasci, mas eu precisei de vinte e quatro anos para fazer esse caminho e achar que o centro da cidade também me pertencia. Não foi só pegar os três ônibus. Antes, eu tive que entender quem eu sou, enquanto mulher vinda da periferia, filha de nordestinos, de imigrantes desvinculados de sua cultura de origem. Eu tive que entender que ser mulher e vir da periferia implica em pegar três conduções para falar, cinco conduções para ser ouvida, sete conduções para que te respeitem. Trem nenhum faz esse caminho. É preciso fazê-lo a pé, passo a passo, e foi o que eu fiz escrevendo o Desesterro. Ele foi escrito a partir do encontro da minha memória familiar com essa experiência de atravessar um abismo social e chegar ao outro lado. E é sobre isso que o Desesterro fala: sobre as distâncias que percorremos, dentro de nós mesmos, para chegarmos a ser o que em verdade somos. Sobre as distâncias sociais que marcam nossos corpos e nos dizem o que podemos e o que não podemos. Não à toa escrevo: periferia é longe da cidade e é dentro dela. Eu também. Estou sempre longe e dentro de São Paulo.

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Editora Record, 2015

304 páginas

Prêmio Sesc de Literatura

Prêmio da Biblioteca Nacional

Premiado no Jabuti

Finalista do Prêmio São Paulo
PEN Translates awards

 
 

TRECHO

             O retratista guarda suas técnicas nas dobras da barriga.

            É meu terceiro olho, ele diz. A caixa preta sobre o pedestal de três pernas quase não se equilibra. Nada escapa aos olhos de um bom retratista, já vou avisando, ele se exalta, trêmulo. Treme ainda mais para rosquear a peça final da máquina. Ele é planta se inclinando para o sol: todo encolhido sobre a caixa. Foi todo se dobrando vértebra por vértebra até os olhos encontrarem a altura do bicho trípode, foi pesando nos ombros as paisagens, a vontade de fotografar sonhos, os retratos de família, até os olhos estarem os dois pesados sobre a caixa esguia. Hoje em dia não servem para nada.

            O Tonho já deve estar chegando, a mulher com criança de colo garante. Por isso a senhora mais velha mulher de idade vai levando todas, a outra e ela, devem ser suas filhas, não, suas netas, vai levando as duas e a criança para fora da casa, vai espantando com o grito até elas chegarem diante dos olhos da câmera, varridas. De todos os olhos. O Tonho qualquer hora chega então pra não perder tempo vamos esperar aqui mesmo, na pose, aqui mesmo o que é que tem, vai mais pro lado, Fátima, anda, até o Tonho ele deve chegar a qualquer momento. O retratista, apoiado nas duas três quatro cinco pernas, espera. A máquina, um cachorro a postos, ladra.

            A máquina: uma parte sua ao lado.

            A neta de vestido cobrindo os pés, maior que ela, não a que segura a criança, a outra, ela fica procurando algo revirando os olhos e tudo em torno. A vó reclama, já falou que a cachorra deve ter ido dar uma volta, vai ver não gosta de tirar retratos, a velha nem se incomoda. A vó plantada na pose, enraizada, mexe os lábios quase nada quando fala. Talvez nem precise retrato para tão dolorosa calma. A mulher com a criança de colo também não se mexe nem apruma. Só seus cabelos, arbóreos, fazem fases no rosto esburacado como a lua. A menorzinha, a vó reclama, essa menina não para de tremelicar, fique quieta, lazarenta, isso lá é jeito de olhar retratista? O Tonho nunca chega, mas ele já deve estar para chegar.

            A máquina demora quinze segundos para fazer um retrato. Os homens demoram muito mais. São quinze segundos travando os dentes, armando os ombros, as pontas dos dedos se mexendo como nunca, tem sempre alguém com essa coceira na nuca, o corpo enlouquecido quinze segundos diante da máquina. Quinze segundos não precisa mais do que isso, mas aquelas mulheres todas parecem dispostas a esperar a vida inteira em um retrato, olhando a câmera nos olhos sem medo do que ela pode arrancar. Não é verdade o que dizem, o retratista tinha garantido para toda a praça em Vilaboinha, os retratos não roubam a alma. Mas diante dessas mulheres ele não sabe o que pensar.

            O sol penteia lento toda a cena. As sombras trançam. Ele olha com seus três olhos tudo aquela gente. O sol vai embora, leva o retratista. Nem o vento fica. Só elas, as mulheres. Paradas. Duras. Esperando o Tonho ele já deve estar chegando logo logo, só mais um pouquinho. Elas quietas. Empoeiradas. Plantadas no mesmo lugar. O sol vai embora, leva o retratista, ele tem medo de que sem a luz, sua única amiga, ele tem medo porque antes de desmontar a caixa preta bicho trípode, antes de guardar seu terceiro olho na sombra do sovaco, ele limpou a lente, uma duas três quatro vezes, insistente. Ele olhou com seus três olhos tudo aquela gente. Ele esperando guardou nos olhos cinco retratos. Ele foi embora com o sol, assustado com a descoberta imprevista.

            Os retratos roubam a alma. Do retratista.

SINOPSE

Desesterro começa quando uma escavação na periferia de São Paulo desenterra os tempos e espaços da história de Fátima, mulher que de tanto apanhar tem nossos destinos gravados na pele. Desenterra uma avó que não consegue morrer, uma menina sem nome, um homem com cães latindo dentro dele e uma criança que só fala uma palavra. Desenterra a história assombrosa da família da louca de Vilaboinha, uma cidade que feito cachorra come os filhotes que não servem. Carregado de dramaturgia e escrito num idioma carcomido pela poesia, Desesterro dá a impressão de transitar entre a realidade e o sonho, trazendo uma versão arquetípica e periférica para o episódio histórico da migração nordestina para São Paulo. Uma história de terror e poesia.

seleção de leituras e entrevistas

 
 
Cheio de originalidade e lirismo, (...) é um soco no estômago, no melhor dos sentidos. Às vezes sombrio, às vezes ecoando esperança em cada frase.

Larissa Bezerra n'O Diário de Maringá

(...) o cenário, os personagens e a realidade mostrada em Desesterro andam um tanto afastados da nossa literatura contemporânea, o ousado trabalho com a linguagem feito por Sheyla também é raro de encontrar por aí nos livros desses nossos dias. Como já deve ter sido possível perceber nos trechos acima, sua escrita traz uma estética ousada (...)

Rodrigo Casarin no Suplemento Pernambuco

É um daqueles livros que têm a rara capacidade de aliar um estilo ousado, instigante em sua ligeireza, e poético sem pieguice. Ao mesmo tempo, esse estilo sustenta uma história redonda, contada de forma não linear, porém sem artificialidade. É também um livro conscientemente político, ecoando alguns dos temas mais relevantes de nosso tempo, mas sem resvalar no panfletarismo. Em resumo, um combo completo e destruidor.

Renata Beltrão no lombada quadrada

Uma das mais empolgantes novas autoras do Brasil.

Caio Menezes no iG