Você sabe ler a poesia do seu Corpo?

Eu costumava chamar de medo aquela sensação de que algo dentro de mim está prestes a desmoronar. Eu tinha muito medo, o tempo inteiro medo. Tanto medo que fomos ficando íntimos e eu resolvi olhar nos olhos essa água toda. Páginas e mais páginas depois e descobri que o que eu chamava de medo como se fosse uma única espécie de planta era, na verdade, uma floresta inteira.


Chamando tudo de medo, eu me escondia de olhar com cuidado, separar as espécies, experimentar de cada uma o chá. Me escondia também de sentir, de viver esses medos de frente. Colecionava caixinhas fechadas. Guardava-as com cuidado nos ombros, com medo de elas abrirem sozinhas e espalharem ao chão o que eu não queria ter que olhar, muito menos recolher.


Para equilibrar todo esse medo, respirava pequeno, mantinha os ombros tensos, duros. Respirava como respira uma mesa.


Levei um susto quando descobri que aquele medo todo era a voz poética da minha intuição. Ela não diz: será que é hora de descansar, meu bem? Ela diz: nada mais faz sentido. Mas ela sempre diz que nada mais faz sentido quando eu estou cansada, prestes a passar dos meus limites.


Esse acontecimento me abriu o caminho para toda uma nova taxonomia emocional. É uma aventura poética encontrar novos nomes para os fenômenos do nosso corpo. Para o que sentimos, para o que pensamos. É afirmar nossa singularidade expressiva instintiva, corpórea, a mesma que poderá, com a prática, dar corpo ao que chamamos de Voz Poética.



Nessa armadilha, dá para passar anos pensando que nossa intuição é fraca. Tímida. Que ela silencia quando a gente mais precisa. Dá pra gente se sentir sozinha. Desacompanhada de si. Abandonada. Com raiva, até – falam tanto de intuição, cadê a minha agora que eu preciso?


Entender o vocabulário do próprio corpo é saber ler a nossa intuição. As palavras de que somos feitas. É aceitar nossa diferença. Aventurar-se nela. Plantar nesse terreno a nossa vida, a nossa criação. É ler-se como poesia.


Beijos,


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