Todas as histórias já foram contadas? O tarot na criação poética (e política) da vida

Existe uma máxima que diz que todas as histórias já foram contadas - a própria História se repete, nos condenando ao passado do qual tentamos nos livrar. Isso pode ser desanimador, dependendo do que você está buscando nas histórias. Os oráculos dizem mais: todas as histórias já foram vividas, já foram encarnadas, e continuam circulando pelo mundo como fantasmas, à procura de uma nova chance de tocar a vida através de um Corpo.


Isso não quer dizer o fim do novo, pelo contrário: isso quer dizer que o novo, o fresco, a liberdade, tudo isso precisará ser encontrado não em uma palavra (usamos as mesmas palavras para tudo, já pensou nisso?) ou em uma história, mas no movimento delas no seu corpo, em como seu corpo as recebe, as encarna, as vive, e também as atravessa, acessando lugares escondidos das mesmas histórias, afinal, são as mesmas histórias rondando sobre a superfície da terra, as mesmíssimas histórias, e a gente ainda não conhece toda a verdade delas.

Esse movimento incessante em busca da vida, vamos chamar aqui de poesia.


Para algumas pessoas é possível passar pela vida acreditando que são aquilo que dizem sobre si mesmas, aquilo que os outros dizem, as histórias que as atravessam. Para outras, é mais difícil, porque são atravessadas não por uma ou duas histórias por ano, mas por dia, por hora, por segundo. Pessoas com alta densidade de histórias transpassando o corpo precisam fazer muito mais esforço para acreditarem que são isso que foge (as histórias sobre si), e não o atravessamento que fica.


Mesmo assim a gente tenta. Até o limite. A gente vai embora com alguma das histórias, segura outra pela calda, faz o que for necessário para confirmar o postulado de que a gente é quem a gente pensa que é, quem a gente jura que é, quem a gente desesperadamente tenta provar que é.


Escrevo e jogo tarot pelo mesmo motivo: para não esquecer que o corpo é um atravessamento de histórias, mais do que isso, para lembrar que eu sou atravessada, que o que eu chamo de “eu” é um emaranhado de histórias muito mais antigas, que é preciso aprender a lidar com elas, com sua violência, com sua sabedoria, eu escrevo e consulto oráculos porque não quero as histórias fora da minha vida, mas também não quero que elas a dominem, eu quero incorporar uma história e depois tomar meu corpo de volta.


No final das contas, só há uma pergunta a ser feita para o oráculo: quais histórias? Nesse momento, essa pessoa, amanhã, quais histórias entre todas as histórias estão me atravessando, me atravessaram ou vão me atravessar? É a mesma pergunta que se faz para um diário. Diante de um livro, ela se transforma em invocação, o caminho inverso, o livro diz: essa história que tenho aqui comigo, onde ela mora no seu corpo? Ao que ela se costura em você? Traz aqui, vamos brincar.


Assim também podemos enxergar a costura histórica. Não como um alinhamento de fatos, mas como um movimento de forças, ideias, desejos, medos, que encontraram corpos para se expressarem no mundo. Assim podemos nos ver como costura poética e política de um conjunto de histórias, as quais somos condenados a repetir sempre que negamos sua existência. Por isso é poético e é político assumir o próprio atravessamento, as histórias de que somos feitos, as repetições a que tendemos.



Uma foto de agorinha, com uma das minhas cartas preferidas.

Conhecer uma história é como conhecer um demônio pelo nome: só assim você se torna capaz de separá-la de um corpo, de não ser sequestrada por sua dimensão ilusória, e sim libertada por seus mistérios. É um jeito de dizer: uma história está te atravessando agora, você apenas não sabe disso, e então você sabe, você nomeia a história e ela aparece diante de você, antiga, pela primeira vez, mas com ares de uma velha conhecida.


O tarot, o diário, um livro e outros oráculos nos fazem habitar uma dessas histórias, incorporá-la, conhecer seus labirintos, conectá-la a corpos e a tempos diversos, revelar suas diversas faces, encontrar para ela novos nomes, novas imagens até. Entende-se uma carta com o corpo, lê-se um livro com um corpo, um poema, então, nem se fala. As histórias as cartas de tarot os poemas estão todos sedentos para tocar a vida, é preciso proceder com presença, aceitar o silêncio entre uma carta e outra, não acreditar quando sua mente disser que você é esse poema.


Porque você é a poesia.


Beijos,


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