não é "só" sentar e escrever

Chega viro os olhos quando dizem que “é só sentar e escrever”, porque é sim sentar e escrever, mas não é “só”. Lembro de ler mil e uma versões desse conselho, versões mais ou menos sutis do famoso “just do it”, lembro de acreditar com todas as forças e sentar para escrever e ficar lá, travada, o corpo revoltado, o bicho dentro dele se debatendo, “só sentar e escrever? Será que pra alguém é fácil assim?” Porque pra mim nunca foi.



Demorei a entender a violência dessa ideia de que pra fazer algo é preciso apenas sentar e fazer. Uma violência sutil, fundamentada na ideia de que o corpo é um bicho a ser domado. “Senta”, a gente diz e ele obedece. “Agora escreve”, a gente diz e ele não obedece, então ficamos com raiva, “ué! Qual a dificuldade?”, como se sentar e escrever fossem dois gestos simples, sem história, sem mitologia. Só significante. Sem significado.


A gente simplifica o ato de escrever apenas ao gesto “visível”, mas já pensou se ler fosse apenas sentar e olhar um livro? Na verdade, quando a gente lê ficção, a gente sente o que o personagem sente. Até nossas ondas cerebrais equivalem – o personagem com o qual nos identificamos corre e nossas ondas cerebrais são as de alguém que corre, embora continuemos sentados no sofá, o livro em uma mão e a xícara de chá em outra.*


Não nos mexemos, mas nossos músculos são ativados, acrescento a partir da minha pesquisa com cinesiologia especializada. Como nos sonhos. Isso porque os músculos interagem de maneira direta com o nosso corpo-memória. Você também experimenta esse fenômeno quando lembra daquela pessoa e seu corpo se contrai como se ela estivesse presente, te olhando nos olhos, exigindo explicação. Você também experimenta isso quando seu corpo se contrai “sem motivo” – na verdade, ele está lembrando, repetindo, fazendo o que acha que tem que fazer para te manter vivo.


Quando a gente vai escrever, processos semelhantes são desencadeados. A gente mexe em corpo, em corpo-memória, viaja no tempo, vive, sente. Mas antes ainda de escrever, no ir escrever, várias memórias são ativadas. Memórias coletivas, inclusive.


Imagine quantas memórias subconscientes que provam por A + B que a coisa mais segura que uma mulher pode fazer é ficar quieta. Não se expressar. Mais ainda, se esconder. Imagina um corpo atravessado por mil e uma memórias e ouvindo o comando “senta e escreve”, como se escrever fosse uma ação simples, sem passado, sem futuro, e não um gesto histórico, perigoso, proibido, poderoso.





Foi isso o que fiz. É isso o que continuo fazendo, todos os dias. Buscando a escrita, a criatividade e uma relação amorosa com o meu corpo – como se tudo isso fosse a mesma coisa, porque é. É um caminho que exige afeto e exige fúria, suor e poesia. Não é confortável, mas é poderoso. É dele que nasce tudo o que escrevo. É a partir dele que renasço para contribuir com o mundo, para ser minha expressão mais selvagem. É ele que vou apresentar para vocês em um curso gratuito, em janeiro, porque eu quero mudar o mundo e não dá pra fazer isso sozinha.


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*Sobre isso, veja a pesquisa da Lisa Cron.