Como transformar o medo de não ser boa o suficiente em força para viver radicalmente sua diferença?

Um episódio de escrita alquímica #diáriodeescrita


Essa semana, pousou no meu diário a questão da síndrome da impostora. Quando algo sócio-histórico já tem um nome, a gente sempre corre o risco de se contentar com isso e não ir para o próximo passo, um passo onde a tentativa de nomear talvez nos levasse: ver a dimensão mitológica da questão, conhecer suas cúmplices, as histórias que dentro da gente a sustentam, a costura dessas histórias no nosso corpo.


Era quinta-feira. Peguei uma coberta, ajeitei a almofada no colo para apoiar o caderno. Na melhor das hipóteses, teria muitas páginas pela frente, às vezes três, às vezes sete, o que fosse suficiente. A vontade de levantar e fazer outra coisa veio junto com a questão, não tive dúvida de que dessa vez era o medo, o chamado para a fuga, e não a perambulação criativa. Respiro fundo, pesando no sofá. Quando uma questão pousa assim em nosso colo, precisamos honrar essa oportunidade de atravessá-la.


Começo pela pergunta: como fica meu corpo quando penso que preciso ser original em tudo, ou não poderei me considerar uma escritora? Meu ombro direito fica tenso, a cabeça mais pesada para esse lado, é como se duas mãos segurassem a parte central da minha coluna como segurariam um lençol a ser torcido, mas não a torcem, apenas seguram, apenas ameaçam. Eu conheço esse vocabulário do meu corpo, sei um pouco mais do que preciso cuidar, mas antes de tudo sei que não é um chamado criativo, uma vontade livre de ser mais original, de ser radical na minha busca pela expressão. É uma armadilha, as tensões no meu corpo me contam.


Uma armadilha feita de histórias.



De armadilhas como esta não é possível fugir, são líquidas, de uma forma ou de outra elas nos encontram, como uma cobra mordendo o próprio rabo elas nos encontram. Será preciso desarmá-la. Para isso, fico atenta ao corpo como ficaria alguém que tenta ouvir o silêncio do cofre para adivinhar sua senha. A partir desse momento, escrever se torna caminhar com a minha imaginação pelo corpo, não tentando controlar os músculos tensos, o encaixe da coluna, mas observando como eles reagem a cada palavra. Esperando o clique da porta do cofre se abrindo. A revelação.


Às vezes, os primeiros caminhos são lógicos e ou não geram efeito no corpo, ou deixam os músculos ainda mais tensos. Dessa vez, tentei desarmar a tensão com várias versões de “não faz sentido”: “é impossível ser original em tudo”, “a originalidade é uma ilusão, estamos sempre transcriando”, “se fosse possível, ainda assim seria egoísta pensar que algo criado sem partir do passado teria mais valor do que algo que atravessa o passado para nascer”, “por que você iria querer negar o passado? Do que você tem medo?”


Habito o corpo, a questão, a sensação de morte, um movimento que se revela aos poucos. Criar condições para poder dizer que sou escritora é, além de um jeito de me afastar desse título, uma maneira de enfrentar, de antemão, as pessoas que eu imagino que contestariam o meu título. É uma cena absurda, mas passa pela minha cabeça: eu digo que sou escritora e alguém, como em um tribunal de série americana, grita “objection!” e diz que não faz sentido alguém como eu se chamar de escritora.


Segundo essa história que me atravessa, eu deveria resolver todas as objeções possíveis e aí sim dizer que sou escritora. Não antes. Não um segundo antes. Deixo essa voz falar e ela me diz que se eu “pegar atalhos”, duvidarão da minha força. É preciso, então, pegar os caminhos mais complicados. É isso ou sou uma fraude e vão descobrir, vão acabar descobrindo de qualquer jeito porque eu simplesmente não paro de criar provas contra mim.


De mãos dadas com essa voz, eu salto. Já hesitei muito em torno de questões como esta, mas aprendi a confiar que sobreviverei e que ela dissolverá com o vento. O salto é escrever com ela. Escrevo, no caso, um poema. Sinto o desenho do poema percorrendo o meu corpo, como uma serpente. Click. A porta do cofre se abre, escancara o meu peito, e essa abertura me mostra a outra face desse nervosismo: o chamado para viver radicalmente a minha criatividade, para me entregar à minha liberdade criadora. O cofre me mostra a mesma força, feita outra.


Não se trata mais de “ser original” para provar que sou algo ou para entrar na rota de me tornar outra pessoa. Não é uma pressão interna, uma cobrança, a resposta a um medo. É um vulcão de onde posso tirar a força para priorizar minha diferença. Como fazer essa alquimia? Como transformar a insegurança sobre ser boa o suficiente em força para viver radicalmente minha diferença? Dessa vez, aconteceu quando escrevi essa poesia.

Você já teve um episódio de escrita alquímica?

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