Da ideia ao texto: escrever para desfazer um nó na garganta

O processo criativo do conto Mulher Cobra, disponível para download gratuito na coletânea Livre


Aconteceu mais uma vez: a sensação de morte quando olharam o meu corpo como se eu não estivesse presente. Foi a partir desse incômodo que surgiu o conto com o qual participei da coletânea Livre, organizada pela escritora Beatriz Leal a partir de curadoria da também escritora Paulliny Gualberto Tort, e que agora está disponível para download gratuito nesse link.


A coletânea conta com nomes de peso: além das próprias Beatriz Leal e Paulliny Tort, temos Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, José Luis Peixoto, Julián Fuks, Lisa Alves e Natália Borges Polesso. Como eles, participei em agosto de 2018 do Festival Internacional de Literatura e Direitos Humanos (Livre!), com curadoria Paulliny Tort.


O conto veio de uma investigação no universo do meu novo romance, Meu corpo ainda quente (a ser lançado pela Editora Nós). Só de pegar nas mãos aquela sensação de morte eu sabia que ela tinha algo de valioso, mesmo assim fiz o teste de impacto falando sobre a situação para algumas amigas e constatei que não era uma experiência individual minha.


O próximo passo foi entender melhor essa sensação de morte, de estar desmoronando diante de um desconhecido, um caminho que percorri com caderno e caneta, escrevendo nos meus diários.



Olhando mais de perto, percebi que o que mais me incomodou foi “não ter feito nada”. Mas eu não fiz nada à toa, eu estava me protegendo da violência que às vezes surge quando um homem percebe que a mulher que ele olhava como se estivesse vazia, na verdade, tem “alguém” dentro. Uma violência verbal caótica e selvagem, delirante, por que me incomodaria?


Desses questionamentos surgem os três pontos principais do conto:

· transformar a morte em renascimento;

· o medo de a violência verbal delirante de homens com o orgulho ferido acertar na loteria e adivinharem alguma dor minha;

· o ponto em que a palavra já não é o suficiente e eles partem para a agressão física.


Desse último aspecto veio o primeiro título do conto, “Como enlouquecer um homem”, tirado do trecho

logo você aprende a enxergar a água de um homem se inclinando antes de derramar, você aprende a saber quando vem o braço, a queda, e aí você só vai precisar apanhar quando quiser ver a cara dele olhando para a própria desumanidade, minha filha, é assim que se enlouquece um homem, dizendo pra ele a verdade.

A Beatriz Leal, que editou o livro, sacou que o elemento central do texto era a metáfora da troca de pele como superação interna, então me escreveu por e-mail: “o que você acha de a gente pensar em um texto que remetesse a essa metáfora?” Expliquei para ela de onde vinha o primeiro título, mas mais tarde sugeri outro: Mulher cobra. Ela sugeriu uma mudança, acrescentar o “é”, mas isso tiraria uma das leituras possíveis.


Prints de e-mails com conversa sobre possibilidades de título.
A Beatriz Leal topou mostrar para vocês nosso papo sobre o título :)

Ficou assim, então: Mulher cobra. A que fecha a conta, a que troca a pele.


No vídeo a seguir, conto mais sobre o processo e dou dicas para você escrever a partir de um incômodo. Para fazer o download da coletânea, clique aqui.



E você? Já experimentou escrever para desfazer um nó na garganta?

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